O curso de Educação para Jovens e Adultos do Santa Maria, sempre pensando em atender mais e melhor as pessoas vítimas de vulnerabilidade, há um ano se dedica a amenizar o sofrimento e tristeza que abate a população refugiada que busca abrigo em São Paulo. O processo deu-se a partir da parceria com Caritas, um dos órgãos que atendem esse público na capital.

Embora o problema pareça estar focado na Europa, o Brasil é uma das principais opções dos refugiados sírios e africanos. O ACNUR, braço da ONU que cuida dessa área, registrou um aumento de 1.200% nas solicitações por refúgio desde 2011. A maior parte delas são de sírios. Existem, atualmente, cerca de oito mil refugiados reconhecidos no Brasil, além dos outros milhares que aguardam a decisão do CONARE, órgão responsável pela concessão do visto de refúgio, para legalizar sua situação em nosso país. O Brasil tem uma avançada e exemplar legislação em relação aos refugiados. Ao contrário de outros países, o refugiado que entra no país e informa à Polícia Federal que vai solicitar refúgio, tem garantido o direito de não extradição enquanto seu processo é analisado, o que pode levar até seis meses.

A primeira etapa para a integração de um refugiado na nova morada é aprender a língua local. Ao adquirirem esse conhecimento, podem contar com o auxílio de outras entidades para a continuação de sua integração e obtenção de empregos dignos que garantam seu sustento e direitos trabalhistas. Para facilitar esse processo, o Santa Maria abriu as portas oferecendo cursos de alfabetização e integração social. Atualmente, conta com 11 alunos de diferentes nacionalidades. Alguns deles, por trauma e receio de violência, não permitem a divulgação de seus nomes ou imagens.

Histórias que contam o drama dos refugiados

Dois irmãos de Benim que, por serem gêmeos convocados pelas tropas de guerrilhas locais, tiveram que fugir. Viviam em uma comunidade, parte de um pequeno aldeamento, com dialeto e costumes próprios. O detalhe curioso no aspecto cultural é que nessa comunidade, quando existem gêmeos, um deles é retirado da família para servir ao culto religioso local com rituais envolvendo sacrifícios corporais, como flagelação e cortes pelo corpo para que se instalem cicatrizes e queloides na pele que simbolizam bravura e abnegação aos sacerdotes.

Dois irmãos sírios, que chegaram ao Brasil há um ano e tentaram estudar em uma escola pública. Infelizmente, o preconceito e estigma os fizeram vitimas de brincadeiras violentas, realizadas por colegas de classe. Eram chamados de terroristas, discriminados em sala de aula, não sendo aceitos para trabalhos em equipes e ignorados nas rodas de conversas durante os intervalos. O fato mais grave ocorreu quando, durante uma aula, colegas de classe colocaram bombinhas de pólvora embaixo de suas carteiras fazendo com que explodissem. Ao acontecer a explosão, quase toda a classe saiu para os corredores gritando que era um atentado terrorista na classe. Por ocasião do incidente, os sírios tiveram suas pernas queimadas e não foram socorridos por ninguém da unidade escolar, que atribuiu o fato a “brincadeira de adolescentes”.

Mulheres também fazem parte de nosso universo de vítimas, entre elas Maria Antonia Fernandez Atoche. Na esperança de encontrar um lugar mais tranquilo para viver e fugir dos problemas políticos que seu companheiro enfrentava no Peru que o impedia de trabalhar, buscou no Brasil acolhida. Convidada por sua cunhada que aqui já vivia, vieram para São Paulo em busca de trabalho. Ao chegarem, percebeu que a intenção da cunhada era de colocá-la em trabalho forçado, como ocorre com muitos imigrantes latinos americanos. Ao se recusar a trabalhar nessas condições, foi despejada da casa da própria cunhada, passando a viver de esmolas e favores. Foi ajudada por um colega de classe do Santa Maria que, ao se deparar com tamanha humilhação e desespero, deu a ela e ao companheiro um lugar para morar. Mas a tristeza não terminava para ela. Meses depois, seu companheiro, não aguentando as agruras da vida no Brasil, partiu sozinho de volta ao Peru, deixando Maria entregue a própria sorte. A alegação dele era que o dinheiro que conseguiram juntar, com pequenos trabalhos, só dava para uma passagem de volta. Maria continua no Santa Maria, estudando e fazendo amigos. Fez um curso rápido de manicure, patrocinado pelo Rotary em parceria com a Escola Nonaka, e agora está trabalhando por conta própria embelezando as mãos da sua vizinhança.

Annour Bako Essoyon tem 28 anos e veio do Togo. Está há três meses no Brasil. Olhos brilhantes, curioso, cheio de sonhos, mas não fala absolutamente nada em português. Esse talvez seja o maior exemplo de solidariedade e acolhida presenciado nesse processo na EJA. Alunos de sua classe estão ajudando a sua integração. A cada final de semana, um colega o convida para passar o domingo com sua família, garantindo boa alimentação e principalmente um convívio familiar. O rapaz vive sozinho em um albergue e pode ser encontrado todos os dias vendendo água nas esquinas da Avenida Sabará com Interlagos.

Ainda estão estudando no Santa Maria Zisou Ivelin e Akoakou, da Costa do Marfim; Mohamad Anas e Abdul Rhman Alsherkh, da Síria, e Salimou Bah, da Guiné.

Esperamos receber mais irmãos que necessitem de nosso abraço, pois os alunos da EJA demonstram a cada dia que o verdadeiro espírito fraterno mora entre nós.

 

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